segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Futuro interrompido

                                             Senador Cristovam Buarque / Agência Brasil

Não deveria haver surpresa no fato de o debate eleitoral estar sendo pautado pelo tema do aborto, da sexualidade e da crença no cristianismo.

Dois fatos levam a população a se preocupar com isso: de um lado, décadas de queda nos valores morais da sociedade - resultando em corrupção, desarticulação da família, generalização da droga, gravidez precoce, abandono de mulheres pelos maridos, prevalência da riqueza como objetivo central e valorização absoluta do consumo - fizeram com que ela, desarvorada pela falta de valores, buscasse abrigo na religiosidade.

De outro lado, nos últimos oito anos a apatia ideológica fez com que os partidos ficassem parecidos, o debate sem ideias novas e os candidatos pouco diferentes entre si.

Debatem-se velhos temas: como crescer, e não qual crescimento; privatizar ou estatizar, e não dar caráter de interesse público a toda atividade econômica, estatal ou privada; como construir mais escolas técnicas, e não como fazer uma revolução na Educação; quem vai distribuir mais Bolsa Família, e não quem a tornará desnecessária.

Nesta crise de valores e neste vazio de ideias, o aborto se torna tema central, embora nada tenha a ver com o cargo de presidente da República. Além disso, este tema fica limitado à defesa da vida do indefeso embrião, sem tocar no assunto do direito à vida daqueles que já nasceram, mas que são abandonados pela sociedade e pelos governos que ela elege.

Para serem levados a sério, os que defendem o direito à vida do embrião deveriam defender também o direito à vida daquele abortado logo depois do nascimento, por falta de uma incubadora que sirva de ponte entre a barriga da mãe e o mundo real onde vai respirar. Mas o Brasil abandona muitos de seus recém-nascidos em hospitais sem UTI infantil, forçando o médico a escolher quais terão a chance da vida e quais serão abandonados à morte, provocando um aborto pós-parto. Um recém-nascido é ainda mais indefeso do que um embrião na barriga da mãe, mas não vemos os que se opõem à descriminalização do aborto criminalizando também os responsáveis pelo aborto decorrente do abandono nas maternidades públicas.

O debate eleitoral mostrou forte movimento contra o aborto provocado por mães antes do parto, mas não há movimento contra os responsáveis pelo fato de que todos os dias mães amorosas perdem seus filhos por falta de atendimento médico no pós-parto.

Também ocorre um aborto quando uma criança morre por desnutrição ou falta de remédios. Vinte e cinco anos depois da restauração da democracia, depois da retomada do crescimento econômico, da estabilidade monetária e da afirmação do Brasil no cenário mundial, depois de 16 anos de governos social-democratas, milhares de crianças morrem no Brasil por falta de comida e de remédios, com suas vidas interrompidas, abortadas.

Seus aborteiros não são mães, nem médicos, são os governos e todos nós, seus eleitores e contempladores passivos, que nos omitimos diante do direito à vida, enquanto comemoramos PIB, Copa do Mundo, Olimpíadas, trem-bala, pontes, estradas, hidrelétricas...

É também um aborto não oferecer escola de qualidade para toda criança.

Bicho só precisa de comida e ar, nasce uma só vez, quando sai da barriga da mãe ou do ovo onde é gestado.

Gente nasce duas vezes: quando sai da barriga e quando entra na escola.

Não entrar na escola é ter o futuro interrompido, abortado. No Brasil, crianças são abortadas a cada minuto, ao abandonarem a escola antes do tempo, como se estivessem sendo expulsas do útero materno antes dos nove meses de gravidez. Mas não há movimento contra esse aborto.

O Brasil é um país que debate as posições dos candidatos sobre o aborto pré-parto, que nem depende do presidente, e se esquece de debater o cuidado das crianças no pósparto, abortando-as por falta de cuidados, remédios, comida, escola. E abortando tantas crianças, diante do silêncio de todos, inclusive de líderes laicos e religiosos, vamos interrompendo o futuro do Brasil.


CRISTOVAM BUARQUE é professor da UnB e senador (PDT-DF).

artigo publicado no jornal O GLOBO no dia 23/10/10

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Breve comentário sobre matéria da Folha de S.Paulo

Comentário sobre matéria publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo, intitulada "PT estuda tirar aborto de programa para estancar queda de Dilma entre religiosos". Assinantes da Folha podem ler aqui.


Dizer que há cristãos contrários à Dilma por ela considerar aborto questão de saúde pública, ok, faz sentido. Agora dizer que eles preferiram a Marina ao Serra, só porque este é favorável à pílula do dia seguinte e aquela é evangélica é ilógico. Não há contingente expressivo de eleitores que descarta candidato por causa disso. É a mesma coisa que afirmar que hoje há quem deixe de votar em candidato que seja a favor do uso da camisinha.

Cristão conservador não vota em candidatA verde com pinta de alternativA e carinha de indígena. Cristão conservador vota em candidato que tem pinta de reacionário que defende os bons costumes. Vota em candidato cuja mulher alerta as famílias de que a Dilma é a favor de "matar criancinhas"; e cujo vice vem de um partido remanescente da ditadura militar, paladina da moral cristã.

Marina Silva ganhou votos dos jovens (de idade ou de cabeça) que não se identificaram nem com a Dilma nem com o Serra, que os acham mais do mesmo. Não ganhou de eleitor contra pílula do dia seguinte, sinceramente. Não foi dessa vez que a religião pautou nossa eleição.



O jornalista Marcelo Soares escreveu no blog Tome Conta do Brasil, da MTV, um post pertinente sobre mistura de política com religião em um Estado laico, como o Brasil.